Entre o minério e a água: bastidores revelam como interesses minerários influenciam retrocessos ambientais no Norte de Minas.

Reportagem: Rádio Liberdade 87,9FM de Porteirinha-MG.
Publicado em: 07/04/2026 às 22:23.
Última atualização: 07/04/2026 às 23:48.
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Fotografia: Divulgação “O Eco”.

No coração do Norte de Minas Gerais, onde o Cerrado encontra o semiárido e abriga nascentes que resistem ao tempo, um conflito silencioso, mas cada vez mais tenso, coloca frente a frente dois projetos de futuro: a preservação de um território ambientalmente único e a promessa de desenvolvimento impulsionado pela mineração.

No centro dessa disputa está o Vale do rio Peixe Bravo, uma região de rara importância ecológica e social que acabou excluída da proposta final de criação de uma unidade de conservação federal após intensa pressão política e econômica.

Moradora da região, Maria Celsa, de 71 anos, parteira, conta que a nascente ao lado de sua casa nunca secou. “De quando eu nasci até hoje”,

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A parteira de 71 anos, Maria Celsa nunca viu a nascente que abastece sua casa secar. Fotografia: Augusto Gomes.

afirma. Ao longo da vida, ajudou a trazer ao mundo mais de 50 crianças na comunidade quilombola do Peixe Bravo, no norte de Minas Gerais. É dessa mesma água que sua família sempre bebeu e utilizou no dia a dia.

“Água é vida”, resume maria, com a serenidade de quem relembra o passado, mas demonstra preocupação com o futuro. Segundo ela, a tranquilidade da comunidade já começa a mudar diante do avanço de projetos de mineração na região, que também vem perdendo parte de sua paisagem natural para o cultivo de eucalipto.

O seu temor é perder a nascente e ver o território dela transformado pela atividade minerária. “A gente fica oprimido”, diz, sentada na varanda de casa, cercada por vasos de flores cuidados com dedicação.

A preocupação ficou ainda maior depois que o Vale do rio Peixe Bravo, onde vivem povos tradicionais e onde está situada a comunidade quilombola de Maria Celsa, foi excluído da proposta de criação de uma área protegida que impediria a exploração minerária na região.

Para entender o que está em jogo, é preciso voltar à origem dos fatos:

A proposta de proteger o Vale do rio Peixe Bravo começou a ser debatida pelo governo federal há mais de 15 anos, devido ao reconhecimento da região como uma área rara do Cerrado, com grande importância hídrica, e forte presença de comunidades tradicionais. No entanto, apenas recentemente a iniciativa ganhou forma concreta. Após articulação entre organizações socioambientais, pesquisadores e moradores locais, o vale passou a integrar a proposta de criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), denominada inicialmente RDS Córregos Tamanduá–Poções–Peixe Bravo.

O projeto original previa uma área de aproximadamente 70 mil hectares, abrangendo territórios dos municípios de Serranópolis de Minas, Riacho dos Machados e Rio Pardo de Minas. Trata-se de uma região estratégica, que inclui áreas de cangas ferruginosas, que são formações essenciais para a manutenção das nascentes e da segurança hídrica. À medida que a criação da unidade de conservação passou a ameaçar interesses econômicos ligados à mineração, especialmente em uma área com alto potencial de extração de ferro que o projeto começou a enfrentar forte resistência política.

Diante da pressão de lideranças locais contrárias à proposta, a área da reserva foi reduzida para 40,8 mil hectares, uma diminuição de 41,6%, e a unidade foi posteriormente rebatizada como RDS Córregos dos Vales do Norte de Minas. Sua criação foi oficializada pelo governo federal em 22 de março deste ano.

Com a redefinição dos limites, áreas essenciais para a segurança hídrica das comunidades tradicionais foram excluídas do projeto. Entre elas, todo o Vale do Peixe Bravo, territórios de comunidades quilombolas e geraizeiras, além das áreas de cangas ferruginosas, com vastas formações rochosas compostas por óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio, altamente visadas pela atividade minerária. Trata-se de regiões estratégicas para a manutenção dos recursos hídricos e da biodiversidade local, cuja exclusão fragiliza a proteção dessas populações e de seus territórios.

Pressão política e interesses bilionários

Documentos de bastidores de reuniões políticas em Brasília (DF), aos quais a Repórter Brasil e o portal de jornalismo ambiental “O Eco” tiveram acesso, revelam a atuação de prefeitos, parlamentares e do Ministério de Minas e Energia na pressão pela exclusão da área do projeto original.

As informações detalham como a área da reserva foi reduzida ao longo do processo de debate sobre sua implementação. E mostram como a mineração, junto com o setor da silvicultura que explora eucalipto na região, endossaram a pressão contrária ao projeto.

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Artes: Renata Costa/O Eco.

Promessa da Vale de R$ 70 bilhões

De acordo com relatos de prefeitos da região, a empresa Vale teria informado que planeja investir até R$ 70 bilhões de reais na criação de um novo polo minerário no norte de Minas. A suposta promessa, relatada pelo Prefeito de Riacho dos Machados Ricardo Paz (PL), conquistou o apoio de boa parte da classe política local.

Em nota, a Vale informa que “não há, neste momento, previsão de implantação de projetos na região”. O posicionamento afirma ainda que a empresa realiza atividades de pesquisa mineral exclusivamente nos locais onde detém direitos minerários. Porém, isso não interferiria na área proposta para criação da reserva (leia a nota completa na íntegra).

Questionada especificamente sobre as promessas relatadas por prefeitos da região, a mineradora não se manifestou.

Em entrevista ao portal de jornalismo ambiental “O Eco”, o prefeito de Riacho dos Machados, Ricardo Paz (PL), afirmou que a chegada de mais uma mineradora seria sinônimo de melhoria para a região: “A gente sabe que se chegar uma empresa dessa, melhora tudo”. Após ouvir promessas do setor, passou a atuar contra a criação da reserva. “Chega de a gente ser Gerais. A gente quer ser Minas também”, declarou.

A fala sintetiza o conflito entre dois projetos distintos para a região. De um lado, o “ser Minas”, associado à ideia de progresso industrial impulsionado pela mineração. De outro, o “ser Gerais”, que o prefeito relaciona à pobreza e ao isolamento histórico do norte mineiro.

Para geraizeiros, quilombolas e outras comunidades tradicionais, no entanto, “ser Gerais” representa uma riqueza concreta, baseada em modos de vida que preservam o Cerrado e garantem a manutenção das águas e da natureza.

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A agricultura familiar é a principal atividade das comunidades quilombolas e geraizeiras. Fotografias: Augusto Gomes (esq) e Leo Drumond (dir).

“Ao invés de a gente ficar com raiva, com ódio de ser chamado geraizeiro, a gente passou a traduzir isso em uma identidade. Agora a gente é geraizeiro com muito orgulho”, define Eliseu José de Oliveira, liderança da comunidade geraizeira de Pindaíba e diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Pardo de Minas.

A pressão do Ministério de Minas e Energia aparece de forma explícita na Nota Técnica nº 70/2025, à qual a reportagem do portal de jornalismo ambiental “O Eco” teve acesso. No documento, a pasta afirma que a RDS, mesmo reduzida, poderia trazer “prejuízos para o setor minerário” e lista “sugestões” para contrapor as ressalvas que faz à unidade de conservação.

Por exemplo, que no decreto de criação da RDS fique permitido, de forma expressa, a atividade minerária tanto dentro de sua área quanto na zona de amortecimento, ou seja, no perímetro do entorno de uma unidade de conservação, onde atividades humanas estão sujeitas a normas mais restritivas.

No fim, o decreto que cria a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas “cede” apenas na zona de amortecimento, onde ficam admitidas as atividades minerárias, desde que previamente licenciadas pelo órgão ambiental competente.

Para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), apesar de permitir atividades humanas, uma RDS deve ser, como o nome diz, sustentável. Uma vez que a mineração trabalha com recursos não renováveis, dar sinal verde para atividade dentro da reserva seria tecnicamente inviável e abriria um precedente perigoso para as unidades de conservação do país.

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Fotografia: Divulgação “O Eco”.

Campo minado de interesses

O volume do investimento que teria sido prometido pela Vale aos prefeitos ajuda a explicar a disputa em torno da proposta de reserva. A gigante da mineração, porém, não é a única com interesse na região.

Conforme apurado pela reportagem na plataforma de dados abertos do Sistema de Informações Geográficas da Mineração (SIGMINE), dentro da área originalmente proposta de RDS estão 171 processos minerários ativos, sendo 12 deles no nome da Vale para extração de ferro. O minério é o principal foco dos requerimentos de lavra, seguido pelo quartzito, ouro e granito.

Mesmo nos limites reduzidos da RDS, que excluem o Vale do Peixe Bravo, há 64 processos minerários que incidem diretamente na área, segundo levantamento do próprio MME na nota técnica. O documento aponta ainda que, ampliado um raio de 10 quilômetros de uma possível zona de amortecimento, o número de processos chega a 208.

As serras ferruginosas abundantes na região são o principal motivo de interesse. Conhecidas como cangas, são formações rochosas ricas em ferro que funcionam como uma espécie de esponja natural, ajudando a armazenar e liberar água para nascentes e córregos da região. Essa dinâmica é capaz de manter rios perenes mesmo em plena transição do Cerrado para o semiárido.

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Exploração de minério de ferro em área de canga, na região do Vale do Peixe Bravo. Fotografia: Leo Drumond.

“É uma área muito especial, muito singular, tem muitas espécies endêmicas, espécies raras. Do ponto de vista ecológico, o Vale do Peixe Bravo é, provavelmente, a área de ecossistema natural ferruginoso mais preservada do Brasil. Porque as outras áreas, como Quadrilátero Ferrífero e Carajás, já tem atividade mineral. Ali não tem. Então, por mais que tenha ali algum eucaliptal, alguma agricultura, o substrato está totalmente íntegro”, afirma Frederico Drumond Martins, coordenador Territorial do ICMBio em Lagoa Santa (MG).

A combinação de solos ricos em minerais, nascentes, áreas de Cerrado relativamente preservadas com influência da Mata Atlântica e da Caatinga, e paleotocas escavadas por animais da megafauna pré-histórica, faz do Vale do rio Peixe Bravo um lugar único no norte de Minas.

Pressão contrária expulsa ICMBio do Peixe Bravo

Se por um lado o ICMBio já antecipava o embate com o setor da mineração no Peixe Bravo, por outro o órgão subestimou a mobilização de lideranças políticas locais contra a RDS Tamanduá-Poções-Peixe Bravo que, na avaliação de Frederico Martins, “se uniram de uma forma intensa, contra a proposta, contra as lideranças das comunidades, com discursos e atitudes intimidadoras, agressivas, violentas, ameaçadoras”.

“Aí todo o Peixe Bravo entra, mas depois tem que sair, porque a gente não teve força para contrapor aos interesses minerários na área do Peixe Bravo, nem para tirar a proposta do ICMBio e levar para o MMA”, admite o coordenador.

O embate também ganhou corpo em Brasília depois da pressão articulada pelos prefeitos de Rio Pardo de Minas, Riacho dos Machados e Serranópolis de Minas, ao lado do deputado estadual Gil Pereira (PP) e do deputado federal Delegado Marcelo Freitas (PL). Os políticos passaram a participar de agendas no MME para defender projetos de mineração na região e criticar a proposta da RDS.

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Banners expostos pelas comunidades no Vale do Peixe Bravo contra a RDS. Fotografias: Augusto Gomes (esq) e Leo Drumond (dir).

Prefeito de Riacho dos Machados, Paz tornou-se um dos porta-vozes do movimento, justificando sua oposição com o discurso de que a mineração traria hospitais, ferrovia e empregos – avanços, que segundo ele, a criação da unidade de conservação supostamente impediria.

Um dos argumentos mais fortes usados pelo prefeito para mobilizar a população local contra a unidade de conservação é a ideia de que a RDS retiraria a autonomia dos produtores locais sobre suas terras. “A partir do momento que vira uma reserva, RDS, você perde o seu direito à terra, a terra vira comunitária. Você não pode mais vender sua terra”, alegou durante entrevista.

O discurso do prefeito se soma a uma avalanche de desinformação que começou a circular na região, como a perda do direito das comunidades plantarem suas roças. A RDS, no entanto, prevê justamente a manutenção dos modos de vida tradicionais, como a agricultura familiar.

Ao lado de Paz, os prefeitos de Rio Pardo de Minas, Tuquinha (PL), e de Serranópolis de Minas, Marcão (PT), também se mobilizaram contra a proposta da reserva. Tuquinha chegou a levar à região o ex-candidato à Presidência Padre Kelmon, que ganhou notoriedade nacional ao participar dos debates eleitorais de 2022 como candidato do PTB depois da inelegibilidade de Roberto Jefferson, preso após atirar contra policiais federais.

Em vídeos publicados nas redes sociais, Tuquinha aparece ao lado do religioso convocando moradores para um ato contra o que chamou de “avanço desmedido do ICMBio para cima da população”.

Em outra visita a comunidades da região, o religioso gravou um vídeo com uma agricultora e alegou que o ICMBio estaria perseguindo produtores rurais, impondo multas milionárias a moradores que vivem no território há décadas. No mesmo vídeo, chama a política ambiental do governo federal de “nefasta” e diz que ajudará a população local a “se libertar” do órgão ambiental.

As gravações circularam nas semanas que antecederam a audiência pública sobre a reserva no Peixe Bravo, em abril de 2025, e passaram a alimentar a falsa narrativa, difundida entre parte da população, de que a unidade de conservação expulsaria moradores de suas terras e proibiria atividades agrícolas tradicionais.

Em um discurso público na comunidade Nova Aurora, o deputado federal Marcelo Freitas (União Brasil-MG) foi enfático ao associar seu mandato ao recuo do governo: “Graças ao nosso trabalho, a RDS não mais será feita, especialmente em Rio Pardo de Minas”, disse, em vídeo postado por ele nas redes sociais.

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Município de Riacho dos Machados, no Norte de Minas. Fotografia: Leo Drumond.

Em outro vídeo gravado em 12 de fevereiro de 2025, o então secretário nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do MME, Vítor Saback, recebeu os políticos e afirmou: “É assim que a mineração acontece: com a gente incentivando, empurrando, fazendo acontecer”.

Na mesma reunião, acrescentou que o ministério estava ali “para apoiar” o projeto apresentado pelas lideranças locais. Pouco mais de um mês depois, Saback deixou o cargo e foi para a iniciativa privada, assumindo o comando da mineradora Paranapanema.

Procurado, o MME disse, em nota, que resguardou “o interesse nacional no aproveitamento do potencial minerário da área, tendo em vista que os recursos minerais são bens da União”. A nota diz ainda que a pasta foi consultada pelo Ministério do Meio Ambiente no processo de análise da proposta de criação da unidade de conservação e que sua manifestação ocorreu “em caráter subsidiário”, dentro do rito de tramitação previsto para a criação de áreas protegidas federais (leia a nota completa na íntegra).

Coordenadora do Instituto Ekos Brasil, Camila Dinat lamenta que o Vale do Peixe Bravo tenha ficado de fora da reserva. “Seguimos no objetivo de fazer o estudo que sustente a criação de uma área protegida específica para essa bacia”, afirma.

Articulada pelo Ekos em parceria com o Instituto Prístino e pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), a nova estratégia para proteger os territórios da região é uma proposta de mosaico de unidades de conservação que combina a criação de um Monumento Natural, focado na proteção integral das cangas ferruginosas, das pinturas rupestres e das paleotocas, com uma Área de Proteção Ambiental (APA), categoria de uso sustentável de regras mais flexíveis.

Segundo Dinat, esse modelo de mosaico permitiria blindar os ecossistemas mais sensíveis do Vale do Peixe Bravo contra a mineração de larga escala, garantindo, simultaneamente, que comunidades quilombolas e geraizeiras permaneçam no território, preservando seu modo de vida sustentável.

Ameaças de morte contra liderança quilombola

Raimundo Pereira da Silva, presidente da associação quilombola Peixe Bravo, é uma das lideranças que lutam pela defesa do território e das nascentes. Produtor rural, ele cultiva café, milho e feijão na mesma área onde nasceu e cresceu, a poucos metros da casa de seu pai e dos irmãos. “Aqui a gente luta para defender a água e defender a vida”, conta a liderança.

Por defender a criação da RDS, ele precisou deixar temporariamente a própria casa depois de receber ameaças de morte. Liderança do quilombo Peixe Bravo, ele passou a viver sob proteção de um programa estadual para defensores de direitos humanos após a escalada de tensão.

O momento mais tenso, diz ele, ocorreu em 25 de abril de 2025, durante uma audiência pública convocada pelo ICMBio na quadra da comunidade quilombola de Peixe Bravo para discutir a criação da reserva.

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A luta do líder comunitário Raimundo Pereira, do Quilombo Peixe Bravo, pela defesa do território fez com que ele sofresse ameaças. Fotografia: Augusto Gomes.

O encontro reuniu cerca de mil pessoas e rapidamente se transformou em um ambiente de confronto. Ônibus fretados levaram manifestantes de cidades vizinhas que não estão incluídas na proposta, mobilizados por prefeitos da região e por grupos contrários à criação da unidade de conservação.

Lideranças comunitárias foram vaiadas e hostilizadas. Parte do público chegou à audiência convencida por mensagens falsas que circulavam nas semanas anteriores, afirmando que a reserva expulsaria famílias de suas terras e proibiria atividades agrícolas como o plantio de café ou milho. Na véspera do encontro, o ICMBio divulgou uma nota oficial para desmentir as informações.

Mesmo assim, o clima permaneceu tenso. Lideranças da comunidade relatam que moradores tiveram dificuldade para falar durante a audiência diante da pressão de grupos organizados de fora.

Entre os moradores que foram ao encontro estava Maria Celsa. A parteira de 71 anos contou ter ficado “assombrada” com o que viu. “As pessoas da região não estavam tendo licença de falar”, relata. Diante do clima que presenciou, decidiu ir embora antes do fim. “Eu não vou ficar porque eu sei que esse lugar não é o meu”, relembra.

Depois do episódio, Raimundo decidiu deixar a própria casa com a família por um período, temendo um atentado. A mobilização política contrária à RDS que marcou as audiências públicas foi um dos fatores que fez o governo recuar da criação da unidade de conservação no Peixe Bravo.

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No Vale do Peixe Bravo, o Cerrado se mistura com influências da Mata Atlântica e da Caatinga. Fotografia: Leo Drumond.

Sem força política para enfrentar a pressão de prefeitos e parlamentares da região, o ICMBio acabou retirando todo o Vale do Peixe Bravo e o território quilombola da proposta final da reserva enviada à Casa Civil.

A comunidade ainda busca o reconhecimento do Território Quilombola Peixe Bravo, com cerca de 17 mil hectares. O processo teve início no final de 2025 e também enfrenta resistência de políticos locais.

Em uma saída com a reportagem, num trecho coberto de folhas secas, Raimundo pisou sem perceber sobre uma jararaca escondida no chão. A cobra deu um bote rápido, mas atingiu somente o solado da bota. Ele deu um pulo, mas seguiu o caminho.

Acostumado ao Cerrado, Raimundo diz que aprendeu desde cedo a lidar com a mata e as cobras são parte da paisagem. Mais difíceis de prever, segundo ele, são as ameaças que vêm de fora do território.

“Como liderança, não vou desistir de lutar enquanto houver morador aqui que ainda pretenda viver neste lugar”, afirma.

Com informações de “O Eco” em parceria com a Repórter Brasil e com apoio do Instituto Ekos Brasil.
Originalmente postado em: Portal O Eco.

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